O meio mais utilizado para a transferência de saberes e experiências é a tradição oral, a qual representa um fenómeno complexo e dinâmico em todas as sociedades. As múltiplas definições que podemos adoptar coincidem em assinalar que a sua riqueza baseia-se na reprodução sociocultural numa sociedade, daquilo que se considera essencial transmitir e que pode assumir diferentes formas – códigos éticos e morais, mitos, música... – Quer dizer, a oralidade é um dos elementos principais daquilo que denominamos por cultura e adquiri a sua capacidade de adaptação. Por isso, a oralidade supera a sua forma verbal e as palavras relacionam-se com os gestos e os objectos aos quais se ligam de forma sobreposta.
Apesar do facto da oralidade estar presente em todas as facetas da cultura, a construção do património cultural no ocidente realizou-se, sobretudo, a partir da valorização das características histórico- artísticas e foi desta forma que se ergueu este edifício como o símbolo da identidade sociocultural, quer seja na forma de construção edificada ou na forma de objecto... No entanto, o objecto não desempenha o mesmo papel em todas as sociedades, e a vinculação com o passado processa-se de tal forma que o objecto ocupa um papel secundário. Deste modo, a partir de meados do século XX os objectos deixam de ser o foco principal de atenção em detrimento da importância que assumem os grupos sociais e do que estes escolhem, elegem e definem como património, assim com o conceito de bem cultural, é mais um passo a juntar à concepção de património, ao perceber-se que neste contexto o importante são os valores que ele representa e não as suas características formais. Desta forma, alarga-se a ideia de património a qualquer manifestação significativa de uma prática cultural.
A oralidade assume um papel na criação e construção do património, material e imaterial, que não tem sido suficientemente valorizada porque se associou o património ao produto final, monumento ou objecto, deixando de lado as componentes da sua produção, descontextualizando-as da experiência que lhe deu forma.
Se partimos do pressuposto de que o património cultural se traduz nas escolhas que uma determinada comunidade realiza tendo em conta os constrangimentos do meio natural e sociocultural – poder, hegemonia, conflito, diálogo – e do que daí resulta, podendo converter-se ou não em referentes ou símbolos identitários, verificamos que a oralidade é uma parte desse património que é necessário ter em conta. Foi assim estabelecido pela UNESCO através da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, ao considerar a oralidade como um dos parâmetros que o define.
Segundo a UNESCO, entende-se por património cultural imaterial (PCI) os usos, as representações, as expressões, os conhecimentos e as técnicas – juntamente com os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhe são inerentes – que as comunidades, os grupos e em alguns casos os indivíduos reconheçam como parte integrante do seu património cultural. Este património cultural imaterial, que se transmite de geração em geração, é recriado permanentemente pelas comunidades e grupos em função do seu contexto, da sua interacção com a natureza e com a sua história, transmitindo-lhe um sentimento de identidade e continuidade e contribuindo desta forma para promover o respeito pela diversidade cultural e pela criatividade humana (Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial).